Por Thaís Batista Rosa Moreira*

 

“–Apenas até certo ponto. [...] embora não tenha sido nem seja um misógino ferrenho, acho irritantes as feministas insistentes que levam a coisa muito a sério e nos reclamam direitos com atitudes viris [...]”

O diálogo anterior é um trecho traduzido e adaptado de uma crônica intitulada “Feminismo”, assinada por Vicente Nicolau Roig e publicada em uma revista satírica de Buenos Aires no ano de 1906. Isso mesmo: 120 anos atrás. A narrativa era, basicamente, uma breve discussão entre duas pessoas com posicionamentos opostos sobre o feminismo. O personagem citado – que se dizia não ser misógino – permanece, durante toda a conversa, manifestando o seu viés antifeminista: diz que o triunfo de ideais feministas traria o caos social, e que um futuro com mulheres engenheiras, advogadas, senadoras, juízas, ministras e deputadas seria uma “aberração”. Como historiadora e feminista, esse texto me chama muito a atenção, e, por muito tempo, a frase original “no he sido ni soy un misógino” fez parte do título da minha dissertação de mestrado. Se fosse para destrinchar em poucas palavras, acho que foi porque fiquei espantada com um vigoroso cinismo que rondava as falas desse personagem: ao mesmo tempo em que exemplificavam as tensões diante do sufragismo do começo do século XX, ressoavam tristemente em frases dos dias atuais. 

A famosa escritora Virginia Woolf, certa vez, fez uma provocação: disse que a história da oposição aos avanços feministas era mais interessante do que a própria história da emancipação feminina. Eu diria, em um primeiro momento, que é bastante difícil considerar a história de uma única perspectiva: a rejeição ao feminismo e a busca por sua legitimação são forças historicamente em tensão e relação. Mas sim, é verdade que o antifeminismo nos preocupa, nos chama muito a atenção. Indo além, poderíamos dizer que o propósito da provocação de Woolf é tocar na sensível questão que diz respeito à busca por tentar entender o ódio e a repulsa direcionados às feministas, às mulheres que questionam, às que dizem “não”. Fiquei anos estudando e escrevendo sobre esse assunto, mas confesso: essas perguntas sempre voltam à minha mente. Voltam quando vejo notícias (diárias, vale pontuar) de feminicídio, quando acompanho com preocupação os dados sobre o quanto os meninos estão crescendo aprendendo a odiar meninas e mulheres, quando chega mais uma eleição e, mais uma vez, vejo alguma candidata sofrer algum tipo de violência de gênero.

Compreender o presente não é tarefa simples. Mas, olhar para o passado com mais atenção certamente é uma forma de tentar lidar com a situação.  Lá no século XIX, as mulheres intelectualizadas já incomodavam bastante: elas eram rotuladas como “anfíbios, metade homem, metade mulher”, “velhas” e “sem fé"; caricaturadas como desprovidas de feminilidade e perigosas para a estabilidade da família e da nação. Com a chegada do sufragismo – a luta pelo direito de votar e ser votada, conquistado no Brasil em 1932 –, esse rechaço às literatas se expande para essas mulheres que exigiam direitos políticos. Vejam só, na América Latina, essas sufragistas eram, muitas vezes, as primeiras engenheiras, advogadas, médicas, biólogas e historiadoras de seus próprios países. Aqui entendo o ódio do personagem na crônica de Nicolau Roig. A despeito das demais particularidades desse grupo de mulheres – que adianto, era mais diverso do que se costuma imaginar – é interessante pensarmos que a educação, a busca por formação e conhecimento, foi um dos principais meios para aflorar, nessas mulheres, o desejo de uma sociedade mais igualitária. 

Outro “lembrete” que o passado pode nos passar é o de que precisamos entender que o antifeminismo, assim como o próprio feminismo, é plural. Quando analisei a imprensa humorística do início do século XX, percebi que esse discurso operava de muitas formas, inclusive de maneira contraditória. No Brasil, as revistas adotavam um tom predominantemente depreciativo, utilizando charges para ridicularizar as sufragistas como “solteironas desesperadas” e apresentar o feminismo como uma “irrelevância” para o cenário local. Já na vizinha Argentina, manifestava-se de forma mais inquieta e argumentativa: os jornalistas preferiram apelar aos receios dos “possíveis efeitos” da emancipação na estrutura social. E sim, 100 anos atrás já havia mulheres antifeministas. Mas, não querendo ser pessimista, admito: não eram tão dedicadas em se auto-humilhar publicamente, como ocorre hoje em dia.

Essas permanências históricas revelam que a ridicularização ou o estigma não são apenas “piadas” inofensivas, mas sintomas e ferramentas da manutenção de desigualdades. E se o humor sexista e as campanhas antifeministas continuam lamentavelmente atuais, é porque eles refletem escolhas do nosso presente – precisamos falar hoje sobre medo da autonomia feminina. A radicalidade do feminismo, como muitas já dizem, está na ideia de que as mulheres devem ter o direito de decidirem o que querem. Em todas as instâncias. Sendo você uma mulher militante ou não, pense sobre isso: suas escolhas a classificariam como uma feminista no olhar daquele personagem misógino que vimos no começo desse texto? É muito provável que sim.  

 

*Thaís Batista Rosa Moreira é professora e historiadora, doutoranda em História Social pela USP e bolsista CAPES. Pesquisa feminismos e cultura visual sufragista na América Latina, com foco nos países do Cone Sul. Integra o Grupo de Pesquisa em Gênero e História do Departamento de História - USP.

 

REFERÊNCIAS 

MOREIRA, Thaís Batista Rosa. Permanências, rupturas, transformações: os antifeminismos de ontem e de hoje. Plural, São Paulo, Brasil, v. 31, n. 1, p. 77–97, 2024. DOI: 10.11606/issn.2176-8099.pcso.2024.223212. Disponível em: https://revistas.usp.br/plural/article/view/223212.

MOREIRA, Thaís Batista Rosa. Na mira do traço: representações antifeministas nas revistas humorísticas PBT e O Malho (Argentina e Brasil, 1904-1918). 2023. Dissertação (Mestrado em História Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo. doi:10.11606/D.8.2023.tde-14032024-102654.