Por Pedro Carvalho*
Sozinha
Penélope desfia
desafia
(abutres, o filho, a multidão)
mas os deuses aplaudem Ulisses
Luiza Romão
I. De uma manhã atribulada
Saí de um trabalho na típica atribulação de uma quinta de manhã correndo para entrar em outro. No carro, vejo o grupo de WhatsApp da organização da 1ª Bienal Repensar Sorocaba ensandecido: estavam comentando sobre o evento na Câmara dos Vereadores de Sorocaba. Imaginei, com razão, que a vereadora Fernanda Garcia (PSOL) estava falando sobre nosso trabalho, uma vez que havia participado de uma de nossas ações na noite anterior. Entretanto, a pauta no grupo não era a felicidade por termos sido, de alguma forma, reconhecidos formalmente, mas, ao contrário, a resposta que outros vereadores tiveram ao evento.
Aparentemente, um excelentíssimo vereador, notadamente de direita e cujo nome e partido não valem as parcas linhas deste texto, retrucou a fala da vereadora Fernanda comentando o absurdo que seria repensar a história da cidade. Segundo meus colegas de evento, para o representante, o que realmente vale é o reforço da figura dos tropeiros que, de acordo com ele, foram personagens históricos mortos pelos “índios” (sic), estes já representados nos livros didáticos. Lendo isso, eu ri. Poderia ter ficado bravo, como já fiz em outras situações do gênero, mas me pareceu que um cidadão tão desconectado da história da própria cidade que legisla merecia mais meu riso triste e amarelo do que minha raiva.
II. De Sorocaba e seus Ulisses
Este texto que escrevo agora não começaria do jeito que começou. Venho matutando sobre ele há algumas semanas e refletindo, a partir da organização da Bienal, sobre os personagens de nossa história. Venho me incomodando cada vez mais com os discursos que elegem “heróis” para nossa gente, como os tropeiros, pintados como os mais puros representantes da alma sorocabana, homens que dedicaram sua vida a construir nossa terra e que contribuíram de forma única para a nossa cultura. A epopeia sorocabana só se realiza na ação dos “grandes homens e seus feitos”, seus bandeirantes, tropeiros, industriais.
Veja, não tenho aqui nada contra a figura dos tropeiros ou de quem os idolatra; à primeira vista, acho apenas brega. Entretanto, gosto pessoal a parte, não posso deixar de apontar, como historiador, algumas questões de cunho analítico.
Creio que é importante situar os personagens em seu devido lugar histórico. Ouvi certa vez de um memorialista local, um desses conservadores que idolatram os tropeiros, que estes homens foram, antes de mais nada, trabalhadores. E nisso, sem nenhuma vergonha, devo concordar. A figura dos tropeiros está inserida em uma lógica de desenvolvimento interno do país e, de fato, cumpriram uma função importante de abastecimento da colônia em um momento de crescimento territorial e populacional vertiginoso no século XVIII, principalmente devido ao avanço das atividades mineradoras. Considerado isso, o tropeiro aparece na engrenagem do sistema colonial como mais um trabalhador – livre, pobre, mestiço.
Seria desonesto de nossa parte desconsiderar, ainda, dois outros elementos pontuais: que eles contribuíram e validaram a escravização negra e a subjugação dos povos indígenas em nosso território. E, por fim, me lembro de outro memorialista conservador – este realmente intragável – que disse, olhando nos meus olhos, que não é necessário falar de mulheres no tropeirismo porque elas nada tinham a ver com o movimento. Nossos Ulisses não tinham Penélopes fiadeiras a esperá-los na Ítaca sorocabana.
Não quero com isso fazer dos tropeiros vítimas passivas de seu tempo e, muito menos, condená-los por nossas mazelas. O que desejo é afirmá-los como personagens mergulhados nas incongruências de uma sociedade escravista marcada pela violência, da qual eram agentes ativos, mas não decisórios.
Heroificar os tropeiros é, ao meu ver, uma afronta à sua memória, pois desconecta seu real lugar na história brasileira e joga para o campo do mítico, e coloca sobre as costas de suas mulas um fardo que não carregavam originalmente: de sínteses de uma cultura. O tropeiro, como parte desta engrenagem, é um personagem entre tantos que contribuíram para nossa formação enquanto nação. Elegê-los como heróis é atribuir um papel que não tiveram, ao mesmo tempo em que se apaga a trajetória de tantos outros grupos com quem dividiram o tempo e o espaço.
Volto-me aqui para o clássico e belo A Formação das Almas, de José Murilo de Carvalho, que narra a saga da república brasileira para se afastar da monarquia. Ao tratar da eleição de Tiradentes como herói nacional, no fim do século XIX, o historiador nos lembra que
“heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos.” (p. 55)
Ora, se considerarmos como certo o que diz José Murilo de Carvalho, o estabelecimento de um herói, diz, na verdade, muito mais sobre seus eleitores do que sobre o eleito. Os defensores dos tropeiros em Sorocaba têm cor, classe social e fazem a defesa dessas figuras em portas que só são abertas para aqueles que usam “traje esporte fino”. Ao pensamento de Carvalho, acrescento que não só legitima regimes como também ideologias, grupos e apagamentos. À revelia da população que desconhece a história local – sem dúvidas, por falta de políticas públicas –, insistem em uma narrativa que já não cabe mais no nosso tempo e já não representa Sorocaba ou o Brasil.
III. Da história e suas funções
Entendo que este texto sobre a construção de heróis é, como tantas outras, uma batalha perdida. Amanhã eu vou sair do trabalho e os vereadores de Sorocaba continuarão defendendo seus tropeiros e bandeirantes de estimação. Mas ele vale, se me permitem a auto valoração, para pensar a função pública da história.
Para que haja plenitude de direitos, a população deve se reconhecer na história que lhe é narrada. A epopeia do herói afasta o conhecimento histórico, o torna simplório e apaga outras narrativas. A discussão histórica séria, crítica, plural e diversa, sem a paixão do discurso vazio, é capaz de fortalecer verdadeiramente a identidade de uma cidade e fazer com que o povo se sinta parte de um coletivo. O conhecimento histórico deve servir à emancipação intelectual das pessoas e não à legitimação de determinados grupos que se recusam a entender que já não vivemos tempos de exclusão. Cito aqui o texto “Por que estudar história?”, da historiadora Laura de Mello e Souza, que costumo discutir com meus alunos em sala de aula:
“Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. [...] O conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.”
Escrevo este texto há poucas horas do aniversário de 372 de fundação da cidade e do evento principal da Bienal Repensar Sorocaba, que pretende, entre outras coisas, discutir a história local. Olhar para o passado nessa circunstância é entender nosso dever com a história: reconhecer as lutas daqueles que vieram antes de nós, não esquecer suas dores e produzir uma história que não continue a vilipendiar os nossos. Repensar a história é uma necessidade, uma urgência, e apequenado é aquele que acha que o passado não pode ser reinterpretado. Nesse sentido, volto ao José Murilo de Carvalho, transpondo sua fala sobre Tiradentes para nossa realidade: “o segredo da vitalidade do herói talvez esteja, afinal, [...] em sua resistência aos continuados esforços de esquartejamento de sua memória.” (p. 73)
Referências:
CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MELLO E SOUZA, Laura. Por que estudar História?. A Folha do Gragoatá. Niterói, 9 de abril de 2012. Disponível em: https://afolhadogragoata.blogspot.com/2012/04/por-que-estudar-historia-laura-de-mello_09.html
Pedro Carvalho é historiador, pesquisador e editor. Mestre em História Social e graduado em História pela FFLCH-USP, também é graduado em Arquivologia pela UNIASSELVI. Pesquisa as relações entre memória, escrita e cultura política, com atenção às formas de produção, preservação e disputa das memórias sociais. É editor e cofundador da Cubile Editorial e coorganizador de Pensar e Repensar Sorocaba (2024) e Narrar Piedade (2025). Também atua na produção historiográfica sobre o interior paulista por meio da coleção Vestígios Urbanos.
