Por Bruno Lottelli/ Sozinho Não Dá*
No último 11 de julho, um sábado, cerca de cinquenta pessoas saíram da Praça Pio XII e caminharam pelo Santa Rosália. A atividade, realizada em parceria com o IAB, marcou a abertura da programação da 1ª Bienal Repensar Sorocaba e propôs um exercício de leitura à contrapelo da cidade. Ao longo do percurso, percebemos que a escola, o campo de futebol e o cineteatro que animavam a antiga vila operária desapareceram há muito tempo. Por outro lado, o prédio da fábrica de tecidos permanece de pé. Não porque tenha sido preservado por seu interesse público, mas porque virou supermercado. De todo o patrimônio histórico do bairro, sobrevive justamente o edifício que continuou a gerar lucro. Sumiu quase tudo o que produzia convivência, cultura e pulsão de vida.
Essa paisagem não é um acidente. É a política em seu estado mais puro. Toda cidade escolhe, diariamente, o que merece permanecer e o que pode ser esquecido. Mas se está em curso uma política de apagamento seletivo da memória sorocabana, existe também uma política da invenção. Ela acontece quando a Feira da Vila Operária e a Feira do Beco do Inferno transformam praças em espaços de encontro, cultura e economia popular. Também aparece quando a Sem Festa Não Dá reúne artistas para fortalecer vínculos que escapam à lógica da produtividade. Está presente, ainda, no crescimento do movimento cineclubista, que ocupa bares, universidades e outros espaços da cidade. Antes de qualquer lei, edital ou autorização, a cidade começa a mudar pelas mãos de quem insiste em habitá-la de outro modo. Cada festa, cada feira, cada caminhada é um pequeno gesto de invenção contra a naturalização das ruínas.
Tombado há quase trinta anos e abandonado pelo poder público desde então, o antigo Matadouro Municipal tornou-se símbolo do Movimento Parque das Artes, que propõe ali a criação de um parque público vocacionado para a cultura e a natureza. Em junho, porém, a Prefeitura escolheu outro caminho ao sancionar a lei que autoriza sua concessão à iniciativa privada. Entre um parque imaginado pela sociedade civil e um empreendimento voltado ao mercado, o que está em disputa é o direito de imaginar Sorocaba antes que ela seja reduzida ao cálculo da rentabilidade. Uma cidade vive do que produz, mas também do que celebra. Vive das histórias que ainda consegue contar sobre si mesma. Vive também da disciplina, da coragem e do entusiasmo de quem insiste em construir o comum, mesmo sem garantia de vitória. Quando perdemos a memória, perdemos também parte da capacidade de imaginar o futuro.
Nenhuma dessas batalhas será vencida por um movimento isolado. Mas é justamente por isso que elas importam. A Bienal não chega sozinha. Encontra uma cidade onde feiras, festas, cineclubes, movimentos sociais e tantos outros coletivos já vêm reorganizando, pouco a pouco, nossa sensibilidade sobre o espaço urbano. A Associação Sozinho Não Dá é uma dessas experiências e segue caminhando ao lado delas. O que temos não é a certeza da vitória, mas saber que o futuro continua em aberto. Foi isso que, ao final, enxergamos naquela caminhada pelo Santa Rosália: as ruínas podem até ser a herança que recebemos. Mas a imaginação continua sendo a cidade que escolhemos construir.
* Bruno Lottelli é sorocabano, cineasta, educador e pai da Madalena. Mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e bacharel pela mesma escola. Sócio da Grão - Cinema e Novas Mídias, focada na produção de obras audiovisuais interativas e imersivas com conteúdos de impacto social. Professor na Universidade Anhembi Morumbi e realizador de oficinas livres de audiovisual desde 2014. Coordenador do Laboratório de Cinema Experimental de Sorocaba, que atua na formação, pesquisa e criação cinematográfica local. Membro-fundador do Fórum de Cinema do Interior Paulista e da Sozinho Não Dá, movimento em defesa das políticas públicas de cultura em Sorocaba.
Sozinho Não Dá é um movimento cultural e político de Sorocaba, articulado para defender as políticas públicas de cultura, fiscalizar o poder público e mobilizar a classe artística e a sociedade civil. O coletivo se posiciona como uma resposta à inércia e ao desmonte cultural, operando sob a lógica de "união na pauta / independência na ação".
