Por Aline Fernandes Carrijo*

 

Wagner Moura protagonizou, neste ano, um momento aparentemente simples, mas que abre uma fresta importante para pensarmos sobre as formas de enxergar o mundo. No Critics Choice Awards, ele fez uma piada ao apresentar a categoria mais importante da noite, a de melhor filme, geralmente ocupada por produções de língua inglesa. Ele disse que aquela era, como chamamos no Brasil, a categoria de melhor filme estrangeiro, arrancando risos da plateia.

A graça está justamente na inversão de ponto de vista. Por alguns segundos, o centro foi deslocado. O que normalmente se apresenta como universal apareceu como particular. O que se apresenta como medida do mundo foi recolocado em seu lugar: o de uma perspectiva específica, historicamente dominante, mas nem por isso neutra, já que define o que é o centro e o que é o resto. Mundialmente, o Brasil costuma aparecer nessa posição periférica, como lugar que recebe, consome, comenta e, muitas vezes, deseja o reconhecimento vindo de fora. Lógica que se repete internamente. 

Se, no plano internacional, a história chega de lá para cá, no Brasil, muitas vezes, ela chega do Sudeste para o restante do país. É nessa direção que se construiu, em grande medida, aquilo que se convencionou chamar de história nacional.

Essa história nacional é, na verdade, um projeto vitorioso. Vitorioso a ponto de fundir a história de determinados estados à própria história da nação. Vitorioso a ponto de fazer com que pesquisas centradas em São Paulo, Rio de Janeiro ou Minas Gerais sejam frequentemente tomadas como expressão do todo, enquanto estudos sobre outras localidades ainda sejam lidos como particulares, periféricos ou complementares: regionais.

 Essa perspectiva traz junto apagamentos, esconde tensões, dissolve fricções e reduz experiências históricas complexas a notas de rodapé. André Roberto de Arruda Machado chama atenção para isso ao afirmar que nenhum acontecimento nasce como história regional ou local; é a nossa visão de mundo que seleciona e hierarquiza os episódios, definindo o lugar que eles terão em nossa compreensão do passado. 

O regional não é um dado natural, assim como o nacional também não é. Ambos são construções históricas, atravessadas por relações de poder, disputas de memória e projetos de interpretação. O que chamamos de nacional, portanto, não é apenas aquilo que abrange mais espaço ou mais gente. É, muitas vezes, aquilo que conseguiu se impor como discurso legítimo do todo.

 

O AGENTE SECRETO X AINDA ESTOU AQUI

Ainda utilizando o cinema como materialização dessas leituras de mundo, ao fim da transmissão do Oscar deste ano na TNT, a comentarista disse que O Agente Secreto é um filme recifense, enquanto Ainda estou aqui é um filme brasileiro. A comparação deixa claro os critérios desiguais com que as obras costumam ser nomeadas. 

Ainda Estou Aqui é um excelente filme, mas é também um recorte. Como qualquer obra audiovisual, escolhe um espaço, um grupo social e uma experiência histórica específica. O Rio de Janeiro do Leblon, completamente elitizado, não é menos localizado do que qualquer outro espaço do país. Não é menos regional por estar no centro do imaginário nacional. E, no entanto, segue sendo recebido com frequência como expressão imediata do Brasil. Fico me perguntando, então, que Brasil é esse. E, mais do que isso, quem foi autorizado, entre nós, a falar em nome dele.

Como bem disse Luiz Ribeiro, “o centro de poder inventa a periferia” e produz um olhar que organiza, classifica e distribui valor. No campo da cultura, isso significa que certas obras são imediatamente nomeadas como nacionais, universais, representativas, enquanto outras aparecem com adjetivos anexados ao nome, como se precisassem ser situadas antes de serem compreendidas. O adjetivo regional, nesses casos, raramente funciona como simples descrição. Ele costuma vir carregado de uma hierarquia implícita.

Para o Nordeste, especificamente, esse olhar se impõe de uma maneira particular. Se há regiões que são empurradas para o silêncio, o Nordeste é percebido a partir de um excesso de imagens. Imagens que variam, mas raramente escapam inteiramente do enquadramento. A seca, a pobreza, a violência, a tradição, a força popular, a mística da resistência. Tudo isso existe enquanto experiência histórica. O problema começa quando essa experiência é tomada como essência. 

Não é casual, portanto, que o Nordeste seja, ao mesmo tempo, um dos espaços mais estereotipados e um dos que mais produziram reflexão crítica sobre esse processo. O excelente livro de Durval Muniz de Albuquerque Jr., A invenção do Nordeste, é um exemplo disso (dentre vários outros que compõem a riquíssima produção intelectual da e sobre a região). O autor mostra como a própria ideia de Nordeste é resultado de uma elaboração histórica, política e discursiva, e não um simples espelho da realidade. 

Ainda assim, a lógica dominante insiste em reaparecer. É, por isso, que precisamos continuar evidenciando que a distinção entre o nacional e o regional tem menos a ver com qualquer lógica estática do espaço e muito mais com relações de poder simbólico e político, divulgadas e impostas ao longo de décadas em nosso imaginário. 

 

O CENTRO-OESTE EM FOCO - OU NÃO

E se, para o Nordeste, pesa o excesso de imagem estereotipada, para o Centro-Oeste pesa, muitas vezes, a ausência. Fala-se bem menos. E essa falta de elaboração pública não pode ser confundida com inexistência histórica. Pelo contrário, ela é também um efeito do modo como a nação aprendeu a se enxergar. Facilmente descrita como conservadora, berço do agronegócio, terra da música sertaneja ou espaço de expansão econômica, a região acaba comprimida em poucos signos, incapazes de dar conta da variedade de seus estados, de suas formações sociais, de suas ricas produções culturais e de suas experiências urbanas e rurais.

Pela ótica mais consagrada da história nacional, o território é associado à valentia dos bandeirantes, à marcha para o oeste, à visão modernizadora e, por fim, aos atos de heroísmo dos políticos mineiros e cariocas na construção de Brasília: o gesto definitivo para ocupar o coração do país. Nessa narrativa, o lugar aparece como vazio, à espera do projeto nacional que, enfim, daria-lhe sentido. 

Ali não haveria quase nada que merecesse maior atenção além do que veio de fora para organizá-lo. O próprio enredo da fundação da capital depende do apagamento. É preciso não ver para que a epopeia funcione. O silêncio sobre o que havia antes, sobre os conflitos produzidos pela construção da capital e sobre as diversas formas de vida presentes na região não é secundário. Ele é parte do projeto historiográfico vitorioso que consolidou uma imaginação histórica específica sobre o Brasil. Não por acaso, no debate sobre cinema, arte e historiografia, o Centro-Oeste aparece muitas vezes como espaço lateral, mesmo quando produz interpretações decisivas sobre o país. 

O que está em jogo, portanto, não é apenas a ausência de informação. É a dificuldade de reconhecer certas experiências como produtoras de pensamento e narrativa nacional.

No meu livro, Diante da Catástrofe, defendo uma mudança na maneira como o cineasta Vladimir Carvalho costuma ser nomeado na história do cinema nacional. Com uma trajetória ampla, Carvalho filmou o Brasil a partir de deslocamentos entre Nordeste e Centro-Oeste. No entanto, segue frequentemente reduzido à condição de “cineasta nordestino” (ou de Brasília, com reconhecimento local), como se a força dessa marca bastasse para explicar toda a sua obra. 

O problema não é reconhecer a presença do Nordeste em sua formação ou em parte decisiva de seus filmes. É transformar essa presença em limite interpretativo. É reduzir a potência da obra àquilo que o esquema dominante já sabia nomear. Em vez de tomá-lo como intérprete do Brasil, preferiu-se muitas vezes colocá-lo numa categoria regional fixa. O impasse não é exclusivo. Ele revela os limites de uma historiografia que continua tratando como nacional aquilo que se alinha aos centros tradicionais, enquanto lê como regional aquilo que escapa deles.

Volto, então, à piada de Wagner Moura, porque talvez ela diga mais do que parecia à primeira vista. Quando ele chama de estrangeiro aquilo que normalmente se nomeia como centro, não está apenas invertendo um ponto de vista. Está lembrando, ainda que por um breve instante, que todo universal tem endereço. Que toda narrativa que se apresenta como natural foi produzida a partir de algum lugar. E que talvez uma das tarefas mais urgentes da historiografia, e também da crítica cultural, seja justamente expor esse lugar.

Pensar a história regional, portanto, não é voltar-se para uma parte menor do país, nem cultivar um apego identitário ao fragmento. É desconfiar de quem pôde falar em nome do todo por tanto tempo. É perceber que o chamado nacional, entre nós, foi muitas vezes apenas um regional vitorioso. E é perguntar, de novo, sem aceitar respostas fáceis: quando chamamos algo de brasileiro, de que Brasil estamos falando?

 

Aline Fernandes Carrijo é historiadora, jornalista e cofundadora da Agência Mosaico. Goiana, orienta sua trajetória pela compreensão do Brasil a partir das raízes do Centro-Oeste. É doutora em História Social pela USP, mestra pela UFRJ e possui MBA em Cinema Documentário pela FGV-SP.