Por Marcela Boni Evangelista*
Hoje em dia está cada vez mais comum falar e ouvir sobre gênero. Mas será que todos estão falando sobre a mesma coisa? Na verdade, a julgar pela polêmica que envolve o termo, fica fácil imaginar que existem diferentes significados atribuídos a esta palavra e, principalmente, muitos equívocos e usos a seu respeito. A utilização mais corriqueira é aquela que remete a diferentes tipos. Este é o caso dos gêneros textuais, ou seja, diferentes modalidades de escrita, o que não desperta desconfiança ou problemas. A questão se complica quando este uso está ligado à diferença sexual, que inicialmente é compreendida de forma binária, refletindo nos gêneros masculino e feminino.
Neste caso, inclusive, aparecendo também na indicação de termos linguísticos, que faz lembrar a época da escola. Quem não se recorda das aulas em que se perguntava, por exemplo: “Qual o feminino de homem?”. Exemplo este bastante eficiente para refletir sobre a complexidade do debate sobre gênero, que se torna campo de disputa quando passa a ser o termo que organiza de forma polarizada a sociedade, supostamente formada por dois gêneros, destinados a mulheres e homens, sendo as primeiras necessariamente femininas, enquanto os outros, obrigatoriamente masculinos.
Observando historicamente, esta visão revela, ao longo do tempo, as relações sociais entre as pessoas, as quais se estabelecem a partir das diferenças existentes e impostas às pessoas segundo suas características biológicas. O que ocorre é que, a partir de meados do século XX, com a intensificação dos feminismos, os papéis atribuídos como naturais a mulheres e homens passaram a ser (ainda mais) questionados. Afinal, existiria um destino ou comportamento específico para cada um dos gêneros?
Exemplos históricos e atitudes contemporâneas se avolumaram para refutar o essencialismo e isso teve reflexos na produção de conhecimentos. É neste ponto que gênero surge como uma categoria de análise em diversos campos, dentre os quais nos interessa particularmente a História. Embora já fosse mobilizado como forma de se referir às questões das mulheres e suas relações com os homens, o conceito foi desenvolvido de forma mais profunda no artigo “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, de Joan Scott, publicado pela primeira vez em 1986. Nesse texto, que se tornou provavelmente a principal referência na área, a autora desenvolve a ideia de que o gênero atua como manifestação das relações de poder e, neste sentido, deve ser utilizado como uma categoria de análise para os estudos históricos em sua amplitude. Afinal, os processos históricos são resultados das interações entre os sujeitos, de modo que estão envolvidos mulheres e homens de forma inevitável. Com isso, podemos pensar que falar sobre as mulheres na História não é trazer uma espécie de apêndice ou complemento, mas trata-se de parte fundamental dos processos.
É também na década de 1980 que se ampliam discussões interseccionais e podemos acompanhar novas perspectivas sobre gênero. Judith Butler é a teórica mais conhecida nesta seara, pois trouxe à tona a dimensão performática e volátil inerente ao gênero. Seu livro “Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade”, publicado em 1990, questiona a perspectiva de uma organização social binária. Ao contrário, ela apresenta a pluralidade que envolve a adoção de formas de existir que permitem múltiplas combinações. Sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual tornam-se componentes das individualidades e mesclam possibilidades de vivenciar o próprio corpo e as experiências sociais.
Diante disso tudo, a História, como área de produção de conhecimentos, participa dos processos e discussões abertos pelo conceito de gênero. Em termos de contribuições efetivas, permite conhecer trajetórias de pessoas e grupos que assumiram diferentes comportamentos ao longo do tempo. Além disso, oferece a possibilidade de recuperar vestígios e mesmo de produzir fontes para futuras pesquisas, nas quais o que as pessoas são, pensam e produzem revela a indiscutível relevância dos estudos de gênero para o conhecimento histórico.
Marcela Boni Evangelista possui Graduação (2005), Mestrado (2011) e Doutorado (2017) em História pela USP. Atualmente é professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na área de Filosofia e História da Educação, e professora colaboradora da Universidade de Taubaté (UNITAU), no Mestrado Profissional em Educação. É pesquisadora do NEHO em REDE e do Grupo de Pesquisa em Gênero e História da USP (GRUPEGH). Entre 2019 e 2024 foi professora na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), onde atuou nas áreas de História da Educação e Ensino de História, em disciplinas das Licenciaturas e Pedagogia. É diretora executiva do Podcast Segundas Feministas do GT de Gênero da ANPUH Brasil, coordenadora do GT de Gênero Nacional da ANPUH e da Regional de São Paulo. Atuou como pesquisadora colaboradora da Universidade Federal do ABC (UFABC), no Projeto História e Memória LGBT no ABC (2023-2024). Entre os anos de 2001 e 2008 integrou a equipe do Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP). Tem como temas de interesse em pesquisa: História oral, História das mulheres, Gênero, Direitos Sexuais e Reprodutivos, Direitos humanos, Ensino de História e História da Educação.
