Por Hellen Franco*

 

Sei que o tempo, carrasco insano, vai varrer nossa história como tantas outras. Antes disso, pego uma caneta e escrevo em um papel. Caneta e papel que também serão devorados impiedosamente por ele – majestoso dragão de fogo. Tento, com este pequeno relato, comportar o tamanho daqueles eventos para quem os viveu. Tento, com este texto, não deixar que a memória se perca. Assim, enganar o tempo. 

A ideia surgiu entre 2017 e 2018. O Brasil vivia um momento político conturbado, e, apesar disso, a comunidade LGBTQIA+ efervescia. Mentiria se dissesse que foi algo que criei; não foi. Me inspirei no que rolava em outras cidades e fiz um pouco diferente. Acho que a maioria das coisas nascem assim, não? Junta-se bagagem e referências, faz-se a sua versão. Naquela época, eu era viciada em álcool e festas. Não sabia mais os limites que um corpo como o meu poderia suportar. Desse modo, pude ir sempre um pouco além do esperado. Aí mora o risco e também algum pedaço de maravilha. Você entende que, ao morar numa nuvem de glitter, você aprende o voo e o brilho? Naquele período, investiguei também a queda. 

Fiquei germinando aquilo, aquela ideia, empolgada e assustada com a possibilidade de romper faiscante contra o esmagador conservadorismo interiorano. Eu tinha visto encontros desse tipo em Sorocaba; eram singelos, com algumas pessoas sentadas em roda contando suas vivências. Em Piedade, nada. A cidade era pequena demais. Havia uma promessa de crescimento, mas como um bolo embatumado, a promessa não se consumou. Não sabia se algo daquele tipo funcionaria ali. Falei com amigos sobre esse desejo e foram eles, Marcela Veiga e Thiago Paulo, que me ajudaram a organizar o primeiro encontro LGBTQIA+ da cidade. 

Ficamos sabendo que uma passeata pró-Bolsonaro iria acontecer no mesmo dia. A cidade minúscula entraria em colapso. Me aconselharam a cancelar o encontro. Não cancelei. Havíamos nos empenhado muito para divulgar e estávamos empolgados demais para voltar atrás. A passeata realmente aconteceu. Os carros circulavam em volta da praça onde estávamos e nos provocavam, apontando armas e coisas desse tipo. Mesmo com medo, continuamos ali. A extrema direita ignorantona avançando a passos largos com sua cavalaria desumana e nós brincando enquanto o caos tomava forma. Algo importante aconteceu ali que, na época, não fazíamos ideia.

A memória é rica em fabulação. Quando lembro agora, aquela tarde vem enfeitada numa moldura quente. Na praça lotada, as pessoas dançavam e se beijavam, com bebidas nos lábios e o som alto tocando músicas que todos nós conhecíamos. Pabllo Vittar, Gloria Groove, Lia Clark, Linn Da Quebrada, Pepita, entre tantas outras. Cantávamos aos berros. Os pés sambavam involuntariamente. Tínhamos entre os dedos, sorrisos secretos. Era assim que caminhávamos naquela praça cheia de bixas, sapatões, travestis, bissexuais, pessoas que não se encaixavam e achavam que nunca iriam se encaixar. Esquisitões de todo tipo. Não era só senso de comunidade, era o encontro individual e coletivo com alguma verdade. Não estávamos sozinhos: podíamos existir e podíamos festejar. Habitávamos a placenta quente desse algo úmido que brotava. 

Não tínhamos grandes expectativas, estávamos felizes só de fazer aquilo. Colocamos uma caixa de som na Praça da Matriz e as pessoas começaram a chegar. Mais de 50 pessoas apareceram naquele primeiro evento. Era algo muito além do imaginado. Depois desse, vieram outros. Sempre com muita gente, pessoas vinham de outras cidades, lotavam vans para comparecer e apoiar. Era como se tivéssemos uma miniparada LGBTQIA+, onde podíamos exercer nossa liberdade dançante, beijar, foder e gritar. Se o pessoal é político, o coletivo é ainda mais - ali essas duas esferas brindavam. Não possuíamos recursos e nem trios elétricos, mas tínhamos vontade e uma caixa de som ligada em volume alto. Era tudo o que precisávamos. Depois veio a pandemia e a vida foi tomando outros rumos. Complicações pessoais fizeram com que eu não conseguisse mais organizar esses encontros e eles acabaram morrendo. A semente plantada vive. A memória vive. 

Nenhum veículo de mídia publicou nada sobre nenhum dos quatro encontros LGBTQIA+ que aconteceram em Piedade entre 2018 e 2019. No último, cerca de 200 pessoas compareceram. Para uma cidade pequena, onde as pessoas têm mais dificuldade de se assumir e viver livremente, era uma multidão. Fizemos em conjunto algo revolucionário. Brilhamos onde a noite parecia escura demais pra nós. Naqueles encontros, fiz amigos. Naqueles encontros muitas pessoas se descobriram. Naqueles encontros muitas pessoas perceberam que não havia nada de errado em ser diferente. Que elas também tinham um lugar no mundo, e também podiam ocupar espaços públicos, sem medo ou vergonha. 

O tumulto causado ainda reverbera aqui dentro, acho que ainda reverbera nas pessoas que estiveram lá presentes também. Fizemos o impensável ser possível. O que trago de mais valioso é a conclusão de que Piedade também é uma cidade para as travestis, gays, lésbicas e bissexuais. Está tudo bem. Não precisávamos fugir para Sorocaba – que à sua maneira também é um bolo embatumado – nem pra São Paulo. Nossa casa era aqui. 

 

* Hellen Franco é travesti e escritora, autora de “A violência do casulo” (Cubile Editorial, 2024) e estudante de Letras pela Universidade Federal de Pelotas. Organizou eventos LGBTQIA+ e de poesias em Piedade, interior de São Paulo.