Por Jean Pierre Chauvin*
Vez ou outra, quem trabalha com o ensino de literatura e outros saberes recebe originais literários ou textos ensaísticos a serem examinados. Parte desse material é enviado por pessoas de seu convívio direto (colegas de trabalho, por exemplo) ou por terceiros (como é o caso de revistas, periódicos arbitrados, editoras universitárias ou comerciais). Numa e noutra modalidade, o que esperam os remetentes? Que, no papel de avaliador, o parecerista seja rigoroso, ético e criterioso, afinal se trata de decidir o destino de uma obra e, em certa medida, do autor que nela trabalhou – e supõe que, em alguma medida, ela seja útil e agradável, como Cícero preconizava (em Dos Deveres) e Horácio reafirmava em suas regras de como fazer poesia (Carta aos Pisões).
Eis uma cena familiar. Lá está o professor, diante do texto que foi confiado ao seu julgamento. Entre a leitura do título e os primeiros parágrafos do manuscrito, um pensamento fugidio se interpõe. Ele se recorda de que os índices de leitura, em seu país, caem ano a ano. Mais especificamente, lembra-se dos diagnósticos revelados durante a sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, amplamente divulgada em 2025: 1) 44% desta população (acima de 5 anos) é de não-leitores; 2) dentre os entrevistados, 81% preferem redes sociais/vídeos aos livros; 36% demonstram dificuldade em decodificar ou interpretar textos; 29% não apreciam ler; 3) 76% dos não-leitores nunca receberam um livro, durante a infância.¹
De imediato, outra reflexão ocorre ao avaliador: a importância de recuperar o sentido original da palavra Crítica e as ações pertinentes a esse trabalho, caso ele venha a abordar o assunto em aula (ou na reunião com o editor, dali a alguns dias). Recorrendo ao dicionário de grego-português, que acaba de retirar da estante, reaviva-se a lição de que o ato de criticar deriva de krinein (separar/julgar); e que kritikós define um ser apto a julgar – ou seja, um leitor autorizado a fazê-lo, dada a sua capacidade de examinar obras, devido ao elevado potencial de discernir aquelas de maior ou menor qualidade; um sujeito responsável que analisa e avalia livros e originais de acordo com uma série de critérios [kritérion]. Do ponto de vista histórico, aliás, a prática é relativamente nova: os primeiros registros de uso do termo Critério, em língua portuguesa, remontam ao século XVIII.²
O quadro (acima) pretende ilustrar que um dos requisitos para se exercer a crítica justa e adequada reside no fato de que o avaliador tenha repertório suficiente para avaliar determinado autor, tema, gênero literário e estilo de composição – sem esquecer a modalidade (ficcional ou acadêmica); a matéria que vai na obra; a ocasião presente em que ela desponta, ou a época em que o texto circulava. Seja uma ficção contemporânea, seja um tratado de poética oriundo do século XVI, é fundamental levar-se em conta os aspectos que orientavam sua escritura, prevendo a adequação ao público leitor daquele tempo e lugar.
Entre nós, João Adolfo Hansen, autor de A Sátira e o Engenho (1989), e Alcir Pécora, que escreveu Teatro do Sacramento (1994), foram os primeiros a defender a importância de historicizar a recepção das práticas letradas. Eles pretendiam reduzir ao máximo o anacronismo subjacente à crítica de pendão nacionalista, método impressionista e abordagem biografista que, neste país, remonta à primeira metade do século XIX.
As contribuições de Hansen e Pécora foram decisivas porque, dentre outros fatores, levaram-nos a perceber que as compilações de prosa e poesia, publicadas no país entre 1829 (ano de publicação do Parnaso Brasileiro ou Coleção das Melhores Poesias dos Poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas, de Januário da Cunha Barbosa) e 1902 (quando sai a segunda edição de História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero), moldaram grande parte do que uma parcela da crítica reproduz ainda hoje. Basta folhear uma apostila de colégio ou curso preparatório para constatá-lo.
Com o perdão do truísmo, a condição essencial do crítico é ser um leitor atento. Isso implica que, além de repertoriar numerosas obras (manuscritas e/ou impressas), quem queira se embrenhar a sério pelo universo praticamente inesgotável da leitura e da interpretação criteriosa precisa ampliar seu conhecimento das diferentes historiografias e vertentes críticas. Nada seria mais contraditório a essa atividade que agir de modo a-crítico, seja pela falta de critérios definidos, seja pelo desprezo aos preceitos e protocolos de leitura vigentes em diferentes tempos e lugares (inclusive, os de hoje).
Não custa lembrar que mesmo os poetas e teorizadores românticos alemães, ingleses, franceses, italianos e ibéricos, que começaram a despontar em meados do século XVIII, recorreram a convenções (ainda que diferentes), ao negar os preceitos e temas retórico-poéticos que os precediam. Quer dizer, cada literatura segue sistemas próprios de regras e exceções, a despeito de seus porta-vozes (hoje, bem menos incensados pela “grande” mídia) defenderem que determinadas convenções estariam, supostamente, mortas. Creio que se possa afirmar que o crítico literário de hoje demonstrará maior aptidão para essa importante tarefa se, de modo análogo ao de um analista, dispuser de efetiva escuta.
Essas e outras premissas do exercício de julgar literatura não estão no vácuo; não se trata de disputar espaço com discursos meramente opinativos ou clichês de coaches-influencers que dominam as redes ditas “sociais”. Se ler livros tem se tornado atividade de menor número de interessados, exercer a boa crítica implica comprometer-se com a memória de si e dos outros, ou seja, engajar-se socioculturalmente com as práticas de leitura e de escrita de hoje e de ontem.
Para além do trabalho em si, produzir crítica adequada constitui um autêntico ato de resistência – maiormente num país violento, desigual, autoritário e preconceituoso como o nosso.
1. Dados disponíveis em: https://sl1nk.com/JLxJC
2. “Critério, s. m. regra, ou princípio de difcernir o verdadeiro do falso; o bom do mal em obras de ingenho, e de juízo. § O hábito prático de discernir, e ajuizar, segundo os critérios, ou regras” (Rafael Bluteau. Dicionário da Língua Portuguesa, vol. 1: A - K (reformado, e acrescentado por Antônio de Moraes Silva). Lisboa: Oficina de Simão Tadeo Ferreira, 1789, p. 349 [Foi mantida a pontuação original].
* Jean Pierre Chauvin é professor do departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP, onde leciona Cultura e Literatura Brasileira. Colabora também no PPG Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa - FFLCH-USP. Escritor profícuo, tem dezenas de livros publicados.
