Por Carlos Baptistella*
“Beijos há que são libidinosos e, portanto, obscenos, como o dado no colo, nas partes pudentas, etc... como o beijo cinematográfico, em que as mucosas labiais se unem em expansão insofismável de sensualidade”.
Sorocaba, véspera do carnaval. A noite sombria da ditadura estendia suas teias nas palavras do juiz Manuel Morales, que mandava prender os beijoqueiros e encaminhar “os infratores às autoridades, a fim de serem instaurados os respectivos inquéritos policiais e sindicâncias, como determinam as leis penas e administrativas”. No mais, os militares sufocavam a economia com o arrocho salarial, a inflação e um endividamento externo brutal.
A resistência crescia. Os universitários recriavam a UNE (União Nacional dos Estudantes) e inspiravam os secundaristas que já lutavam pelo passe escolar e os grêmios livres. Os grupos de teatro agitavam a cena e desafiavam a censura com montagens de Leilah Assunção, Antonio Bivar, Plinio Marcos e outros. Carlos Mantovani e Roberto Gil eram nomes de destaque por aqui.
Os jornalistas de São Paulo tinham feito a greve de 1979. Deve-se lembrar que grupos extremistas de direita queimavam bancas que vendiam os “nanicos”, jornais alternativos como Pasquim, Opinião, Movimento, Versus... Em 1980, uma carta-bomba contra a OAB matou a secretária Lyda Monteiro. No ano seguinte, os extremistas tentaram detonar uma bomba no enorme show em comemoração ao Dia do Trabalho, no Rio Centro; mas o artefato explodiu no colo dos militares, no estacionamento. Aqui, os profissionais de imprensa criavam um combativo tablóide alternativo, o Sorocaba Urgente, em que todos escreviam, produziam e vendiam os exemplares de mão em mão.
(Um parêntese é necessário. Sorocaba já chorava seus mortos: aos 15 anos, o líder secundarista Marco Antônio Dias Baptista foi o desaparecido político mais jovem da ditadura, em Goiânia, em 1970; e o universitário Alexandre Vannucchi Leme, o “Minhoca” da Geologia da USP, foi barbaramente torturado e assassinado pela Operação Bandeirantes, em 1973).
Mas a juventude, revoltada e irreverente, decidiu desafiar a proibição ao beijo. Uma pichação na avenida Marginal enviava o recado: “o beijo é um negócio sem morales, né, Mané?”.
O movimento secundarista queria reunir pelo menos 300 jovens em um ato de desagravo, com poesia, teatro e música. Mas o movimento daquele sábado histórico, 7 de fevereiro de 1981, juntou milhares na praça Cel. Fernando Prestes. Mais de 4.000 pessoas. O som do microfone foi cortado (sabotagem?) e a comissão secundarista só conseguiu ler um manifesto que era repetido, em coro, na frente do coreto.
Além da liberdade de expressão e de beijos, o manifesto defendia os líderes das greves metalúrgicas do ABC, entre eles Lula e Zé Maria, que estavam sendo processados. Depois uma passeata seguiu pela Boulevard Braguinha, contornou a Praça do Canhão e caminhou de volta à praça principal. A juventude gritava: “Mais beijo, mais pão, abaixo a repressão”. Cartazes diziam “Beijem-se, sejam criminosos” e “Imoral é a fome”.
Em meio aos “beijos cinematográficos” e aos protestos, uma pedra atingiu o vidro de uma viatura policial. Era a senha de algum infiltrado para a invasão de policiais com cassetetes. Muitos jovens correram, outros foram presos, outros reagiram. A batalha de pedras e as correrias se prolongaram até o começo da madrugada.
Depois vieram os inquéritos na LSN (Lei de Segurança Nacional), as ameaças, a espionagem na casa dos líderes e as demissões – mas já não se podia apagar a história.
*Carlos Baptistella é designer gráfico, jornalista e professor. Na imprensa desde os 14 anos, foi arquivista de clichê e repórter no Diário de Sorocaba e no Cruzeiro do Sul. Fez direção de arte nas revistas Around, Marie Claire, Nova Beleza, Casa Vogue e outras. Criou e editou o catálogo do Salão Internacional do Automóvel de São Paulo por 20 anos. Fez ilustração digital para Regina Silveira e colabora com Guto Lacaz desde 1987, com materiais impressos e exposições. Formado em Letras pela USP, publicou Noite do beijo (2009), Periculoso (2021) e Prelo (2023), disponíveis digitalmente.
