Por Erika Hilton*

 

 

A escala 6x1 é, hoje, muito mais do que um mecanismo de exploração desumana do trabalho alheio. É uma forma de controlar, em massa, o que cada trabalhador que vive essa escala indigna faz com seu pouco tempo de descanso, com o único dia da semana em que não está trabalhando.

 

Se o salário mínimo corresponde, ou deveria corresponder, à quantia de dinheiro necessária para que o trabalhador supra suas necessidades biológicas para se recompor e trabalhar no dia seguinte, o tempo de descanso mínimo corresponde ao necessário para que o trabalhador exerça outras funções básicas que lhe são esperadas.

 

Durante o regime escravocrata, parte dos escravizados tinha o domingo reservado para produzir alimentos para a própria subsistência e, sob orientação da Igreja Católica, para orar a Deus. Vivendo uma verdadeira escala 6x1, quando os escravizados não estavam cumprindo com a função de mão-de-obra, eles estavam se recompondo para continuar sendo mão-de-obra ou fortalecendo, e perpetuando, uma das principais instituições que justificava a exploração à qual eles estavam submetidos.

 

Hoje, não há uma imposição explícita do sistema de exploração vigente do que o trabalhador deve fazer com o seu sétimo dia. Mas há um limitado leque de opções implícitas. Há o subsistencial, como lavar a roupa da semana, fazer suas marmitas, “cuidar” da saúde, conviver em família e resolver pendências burocráticas. E, se sobrarem algumas horas, há o tempo para o lazer, mas só o mínimo para que o trabalhador exerça sua existência em sociedade.

 

No interior paulista, essa limitação de possibilidades é evidente.

 

O cinema, caso a cidade tenha um cinema, já não é mais uma opção tão atrativa quanto antes. O ingresso tá caro, a pipoca uma fortuna e os filmes são longos, exigem um período de desconexão das redes e de todos os seus estímulos. O streaming tá valendo mais a pena.

 

Um show custa caro, e se for barato ou gratuito, provavelmente é de banda local, que ninguém tem tempo pra parar, ouvir e descobrir se vale a pena ir ao show. Não vale a pena, pro trabalhador que vive a escala 6x1, investir seu pouco tempo de descanso em quem tá começando.

 

Teatro… Quem tem tempo pra assistir teatro? Quem tem tempo pra fazer teatro?

 

Já ir ao parque até que é uma opção viável. É de graça, é prazeroso e, talvez, se os astros se alinharem, esteja rolando alguma feira, evento cultural ou programação diferente. Mas que parques são esses? Estão minimamente preservados? Eles têm sombra e equipamentos básicos como banheiros e bebedouros? Tem brinquedão pras crianças? Tem um cercadinho pra brincar com o cachorro? Eles, pelo menos, existem? Isso varia muito de cidade pra cidade.

 

Ir comer fora também é legal. A comida só precisa ser gostosa, não pode ser muito diferente, a conta precisa caber num orçamento limitado, o atendimento precisa ser rápido e não dá pra correr o risco do ambiente ser minimamente desconfortável. Talvez um fast-food seja uma opção melhor. As crianças vão gostar bastante. Ou então dá pra pedir pelo aplicativo pra comida de fora chegar dentro de casa.

 

Caminhar pelo Centro pode ser gostoso, mas também é mais complexo. É seguro? Tá muito quente? As ruas são arborizadas? Tem vida na calçada ou só muro de prédio? Será que aquela sorveteria ainda funciona? Tá tudo cheirando xixi? 

 

Se na cidade tiver um shopping, é uma boa opção de passeio. O espaço é seguro, climatizado e ele aplaca bem o anseio de sair de casa. Mas até os shoppings, esses não-lugares, tão tendo dificuldades. Além do tempo, a experiência completa exige um mínimo de consumo, mas na internet tá tudo mais barato e o estacionamento tá muito caro.

 

Na busca pelo melhor custo-benefício e pela garantia de prazer em um tempo limitado, resta pouco pra se fazer, especialmente pra juventude. Tem o barzinho, o boteco, alguma festa da família, alguma programação com os amigos e, nas cidades maiores, uma baladinha ou até uma experiência instagramável. Pras pessoas LGBTQIA+ do interior, então, as opções são mais limitadas ainda.

 

Muitas vezes, o melhor custo-benefício e a garantia de prazer vão estar em deitar no sofá, pegar o celular, ver a timeline passar e um influencer falar. Parte considerável dessas pessoas, na busca por um estímulo maior, entretida com a mera possibilidade de um dinheirinho a mais, vai ser influenciada a encontrar a emoção de se jogar no tigrinho.

 

E as igrejas também seguem firmes e fortes. Afinal, da escravização à escala 6x1, é vital aos trabalhadores ouvir que todo esse cansaço, que toda essa exploração indigna, faz algum sentido e que ele é digno de algo além do que vive hoje. Que seu quinhão está por vir e que ele virá pelas mãos de Deus. E isso justifica todo o dízimo.

 

Romper com a escala 6x1 é romper com essa lógica que domina uma parte expressiva da população das cidades do interior paulista. E não falo isso porque quero o fim dos shoppings, dos botecos, dos barzinhos, dos streamings, dos deliverys, das igrejas, dos feeds ou das baladas… do tigrinho eu quero o fim, sim.

 

Falo isso porque é inaceitável que essas sejam as únicas opções de contentamento para tantos trabalhadores exaustos com pouquíssimo tempo livre.

 

Falo isso porque, pras cidades do interior terem espaços democráticos de lazer, cultura, liberdade, convivência e cidadania, as suas populações precisam de tempo para construí-los e para exigi-los.

 

 

 

* Erika Hilton é uma política e ativista brasileira, deputada federal por São Paulo e uma das primeiras mulheres trans a ocupar o Congresso Nacional. Filiada ao PSOL, sua atuação se destaca na defesa dos direitos humanos, da população LGBTQIA+ e no enfrentamento das desigualdades sociais.