Por Cícero Santos*
Sorocaba, 20 de fevereiro de 2026.
Nos últimos anos, tenho sentido uma grande dificuldade em ler livros. Começo, avanço, paro, retomo, abandono; começo outro e por aí vai. Talvez isso se deva ao fato de que fiz de uma paixão, trabalho. E não é segredo a ninguém que o trabalho - por mais prazeroso que seja - nos deixa enfadados. Isso não quer dizer que leio pouco, evidentemente. São inúmeras as redações semanais de meus alunos, os manuscritos enviados à editora, os projetos pessoais que desenvolvo, e isso faz de mim um leitor, daqueles meio errantes, mas um leitor.
Escrevo isso após terminar de ler o espetacular A cabeça do santo, escrito por uma conterrânea de minha mãe, Socorro Acioli. É o segundo contato que tive com a sua obra, pois há exatamente um ano li Oração para desaparecer. Tenho cada dia mais me encantado por descobrir histórias do Ceará, entender o funcionamento daquele povo e daquela região que eu só conheço de ouvir e de falar. Lá, nunca estive, ainda que toda a minha família seja dos mais legítimos cearenses. Diria que conheço pela migração.
Na minha cabeceira, há mais de cinco livros com leituras inacabadas. Uns ali há semanas, outros há meses, porque pela minha inabilidade de abandonar as coisas, deixo-as de lado, na espreita, sempre visível, dominado por um sentimento de que voltarei a qualquer hora a folhear as páginas e redescobrir os motivos que me fizeram começar a ler - e os que me fizeram parar.
Ali, naquela mesinha bonita que comprei numa promoção relâmpago no estilo “deu a louca no gerente", deito livros brasileiros, estadunidenses, russos, sul-coreanos, contemporâneos ou já um tanto antigos. Todos novos para mim, mas ao mesmo tempo velhos de vista. Sei de cor os elementos que compõem as capas, as tipografias usadas, os tamanhos e formatos. Acho que é preciosismo de um editor que sente amor por projetos gráficos. Engraçado que antes de fazer Letras, ainda naquele momento esquisito da adolescência, eu pensei em cursar Publicidade e Propaganda, porque achei que era criativo demais e teria muito a aprender - ainda que eu tenha passado pelo evento canônico de querer ser astronauta, comprei telescópio, decorei nomes, aprendi um pouco sobre física y otras cositas más.
Felizmente, escolhi Letras. Queria ser professor de idioma estrangeiro. Fui por muitos anos. Desisti. Foi num momento também esquisito, mas agora da vida adulta, que me vi apaixonado pela Língua Portuguesa, essa herança colonial ultramarina impositiva que permanece por aqui construída de muitas outras línguas, formas de falar-pensar-escrever-ser. Era paixão mesmo. E continua sendo. Vez ou outra procuro uma palavra no dicionário, pesquiso a formação de uma estrutura linguística, procuro saber sobre os pontos de articulação e os sons e leio livros. Nem sempre em Português como se nota pelos livros dorminhocos ao lado da minha cama. Mas sempre bons livros.
Esse que me fez sair correndo do sofá, sem nem tempo para digerir e me obrigou a escrever essas poucas palavras, mexeu comigo de uma forma quase espiritual. Ufa, logo eu tão cético das coisas. E tão convicto também. Samuel, o personagem, quase enlouqueceu ouvindo tantas preces enquanto ele próprio estava ali procurando abrigo na cabeça de Santo Antônio. Ele que despido de mundo, precisava apenas cumprir uma promessa para sua mãe há pouco falecida. Talvez eu seja um pouco de Samuel. Pode rir, mas é verdade. Essa semana tenho sonhado muito com a minha avó Maria José, ou Dona Lia para os íntimos. Num dos sonhos, ela me pedia algo que eu teimo em lembrar, mas não consigo.
Já se passaram dez anos desde que pude sentir o seu cheiro de vó pela última vez. Faz pouco mais de uma semana que todo dia eu sonho com ela. Será que ela precisa de mim e esse é o jeito de me chamar? Ou será que num outro plano ela aprendeu a ler e está, neste momento, lendo Socorro Acioli e rezando para que Santo Antônio a conceda algum desejo e eu aqui, por algum motivo que pouco se sabe explicar, estou ouvindo sua voz? Mas que tristeza é pensar isso, porque eu não consigo lembrar o que ela me pede. Tentei mandar um áudio para mim mesmo logo após acordar, mas nada mais era do que um sonho dentro de um sonho. Pensei em escrever o que lembrava, até deixei algumas canetas deitadas ao lado dos livros como fiz quase a infância toda. Falhei.
Nos derradeiros momentos do livro, um amigo de Samuel coloca no rádio uma versão de Roberto Carlos de Força Estranha. Ao ler aquilo, fui ouvir emocionado a canção que só conhecia pela voz aguda de Gal dizendo “A vida é amiga da arte, é a parte que o sol me ensinou/ O sol que atravessa essa estrada que nunca passou". Talvez esses sonhos que tenho tido sejam nada mais do que uma força estranha me levando a escrever, a pensar, a ver a vida com outros olhos. Mais gentis e atentos. Menos céticos.
Mas eu tento não ser assim. Ainda que eu não consiga ser diferente do que sou. “E não posso parar”. Quando leio livros em outros idiomas, de outros lugares, faço um exercício de alteridade de entender novas dinâmicas de mundo, novas formas de falar sobre as coisas. Conhecer outros mundos também é uma forma de me entender. Ontem, no jantar, conversando com meu companheiro sobre um livro do iraquiano Sinan Antoon que ele está lendo - Ave Maria -, falamos sobre tâmaras. Ele me leu uma linda passagem sobre o assunto em que um narrador idoso conta sobre o amor que o seu jardineiro tinha pelas tamareiras e como após a invasão dos Estados Unidos as coisas mudaram por lá - menos o seu amor pela planta. Lembrei que dois dias antes tínhamos comprado romãs pela primeira vez desde que nos juntamos. Ambas frutas de uma mesma região. Pacientemente enquanto ele fritava um alho para fazer um arroz, eu fui tirando semente por semente. Jantamos e depois comemos o fruto que há muito eu não sentia o sabor.
Ele disse que comia bastante na infância, porque sua avó tinha um pé em casa. Lembrei do trecho lido. Do amor do jardineiro. Lembrei também que eu comia com frequência na minha infância pois meu padrinho-tio tinha um enorme pé de romã no quintal da frente. Ele, cearense que é, tinha no quintal dos fundos, um pé de seriguela que eu e minhas primas adorávamos comê-las verdes com sal.
Hoje está um lindo dia. Faz sol e o céu está azul com algumas nuvens esparramadas e um vento fresco. Parece ser um ótimo dia para lembrar das coisas. Para se apaixonar pelas memórias que vêm e vão. Para ser tocado por um livro que te coloca numa encruzilhada, mas que nenhum caminho se faz visível. Não sei para onde vou depois que terminar este texto. Não sei se lavar a louça, se brincar com as cachorras, se escolher um novo livro. Sei apenas que me sinto vivo e feliz. A arte me tocou, como sempre faz.
Que lindo dia! Acho que vou olhar pela janela, fundo no horizonte.
*Cícero Santos é Mestre em Letras, professor, pesquisador da escrita da memória e editor.
