Maíra Maximiano*
Em uma sociedade que mede tudo pelo lucro e pela utilidade, qual é o lugar da arte? O que pode a poesia em um mundo que exige função, produtividade e retorno imediato?
É esse o incômodo — delicado e profundamente perturbador — que atravessa “Vamos comprar um poeta”, do escritor português Afonso Cruz. Na obra, somos apresentados a uma realidade em que a lógica utilitarista não é apenas dominante: ela estrutura afetos, relações e modos de existir.
Ali, tudo é contabilizado: as gramas do espinafre, os miligramas da saliva de um beijo, a porcentagem do quanto se está apaixonado. Tudo se torna mensurável — e, portanto, negociável, observa-se o patrocínio de uma marca até mesmo em um corrimão da casa. A linguagem que circula entre os membros da família — chamados pelo pai de “contribuintes” e identificados não por nomes, mas por códigos — é a do mercado financeiro: “transações”, “investimento”, “cotação”, “dividendos”. Nesse universo, absolutamente tudo precisa servir para alguma coisa. Tudo precisa justificar sua presença.
É nesse ambiente que um poeta é “adquirido” por uma família. Havia também a possibilidade de escolher um pintor, prontamente descartada — afinal, pintores sujam demais. Nesse mundo distópico, artistas ocupam o lugar dos animais de estimação: existem para entretenimento, ornamentação e distração. A arte, reduzida a capital simbólico, é, a princípio, domesticada — não pelo que diz, mas pelo que aparenta dizer. Mesmo incompreendida, cumpre sua função social: conferir status. Afinal, nada mais sofisticado do que ostentar aquilo que não se entende. A filha insiste. O poeta é comprado. E, com ele, irrompe aquilo que nenhuma lógica previu: o desconcerto.
Sua linguagem não se encaixa. Seus versos não produzem resultados mensuráveis. Quando fala, sua voz soa como um ruído indecifrável aos ouvidos de quem desaprendeu a escutar a linguagem sugestiva — aquela cujo propósito não é informar, mas provocar; não é explicar, mas tensionar sentidos. Ao recitar versos de Walt Whitman, ouve-se apenas um fluxo aparentemente incompreensível:
O pai pediu ao poeta que dissesse um poema. Ele levantou-se. Ouviu-se Jdjdjdjfjfjfjfjfjfjf-jjfk, mas o que o poeta disse foi: “Folhas dos túmulos, folhas do corpo crescendo sobre mim, sobre a morte”. (CRUZ, 2025, p. 24)
A metáfora, ali, não encontra tradução — e chega mesmo a ser tomada como mentira. Para as personagens, habituadas a uma linguagem estritamente funcional, aquilo que não corresponde literalmente ao real só pode ser considerado falso. Trata-se, porém, de uma leitura empobrecida, incapaz de reconhecer que a linguagem poética opera por sugestão, não por verificação.
Ecoa, então, a provocação de Fernando Pessoa em Autopsicografia, ao afirmar que “o poeta é um fingidor”. Mas, em Pessoa, o fingimento é elaboração: a experiência é recriada pela linguagem e, ao circular, deixa de ser apenas do poeta — passa a acontecer no outro. Se, no universo distópico de Afonso Cruz — que também é o nosso —, a poesia é recusada por não dizer o real, em Pessoa ela persiste justamente por recriá-lo — e é nesse desvio que reside sua verdade, necessidade e grandeza. Talvez essa seja uma das imagens mais potentes do livro: a incompreensão diante daquilo que não se deixa reduzir.
Mas há algo que escapa.
A presença do poeta, ainda que inicialmente estranha, começa a produzir fissuras naquele mundo excessivamente organizado. Porque, embora não gere lucro, ele introduz outra dimensão: sensibilidade, imaginação, possibilidade. E, pouco a pouco, aquilo que parecia inútil revela sua força transformadora.
Não por acaso, ressoa aqui o verso dos Titãs: “a gente não quer só comida”. Há uma dimensão da experiência humana que não se satisfaz com o material. Há uma fome que é de sentido, de beleza, de respiro.
Antonio Candido, ao defender a literatura como um direito fundamental, nos lembra justamente disso: a arte não é ornamento — é necessidade. Ela nos humaniza, não no sentido abstrato da palavra, mas naquilo que nos constitui como sujeitos capazes de sentir, imaginar, reconhecer o outro e a nós mesmos.
Em “Vamos comprar um poeta”, esse gesto humanizador se traduz de forma exemplar: ao riscar um verso na parede, o poeta abre uma vista para o mar. É difícil pensar em metáfora mais precisa para o que a poesia faz conosco. Ela cria frestas. Ela desloca. Ela permite ver além do que está dado.
O poeta efetivamente havia escrito na parede. Dois dias antes, ao sentar-se ao meu lado, reparei na frase, escrita com caneta de feltro preta, cerca de trinta centímetros acima da cama.
— O que é aquilo, ó poeta?
— Uma janela.
— Parece uma frase, talvez um verso.
— É uma janela. Tem vista para o mar.
Li a frase de vinte e três letras. Dizia assim: Como é que o mar, tão grande, cabe numa janela tão pequena? (CRUZ, 2025, p. 40)
Mário Quintana já havia dito, com sua conhecida delicadeza, que “quem faz um poema abre uma janela”. Talvez seja disso que se trate: em tempos de excesso de cálculo, a poesia insiste em abrir janelas onde insistimos em ver apenas paredes. Ela nos devolve o ar. Nos convoca à liberdade.
Mais do que perguntar qual é o lugar da arte em uma sociedade guiada pelo lucro, talvez devêssemos inverter a questão: que tipo de vida é possível sem ela?
Porque, no fim, não se trata apenas de ler poesia. Trata-se de precisar dela.
Bibliografia :
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. São Paulo: Duas cidades; Ouro sobre azul, 1995.
CRUZ, Afonso. Vamos comprar um poeta. Porto Alegre: Dublinense, 2025.
PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa–Antologia poética. Bazar do Tempo Produções e Empreendimentos Culturais LTDA, 2020.
QUINTANA, Mário. Mario Quintana: poesia completa. Nova Aguilar, 2008.
TITÃS. Comida. In: Jesus não tem dentes no país dos banguelas. São Paulo: WEA, 1987. 1 disco sonoro. Faixa 6.
* Maíra Maximiano é graduada em Letras pela UNIFESP e mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP. Atua na educação básica com ênfase na formação de leitores e no desenvolvimento de práticas pedagógicas voltadas para o Ensino Médio.
