Por Guilherme Tardelli*
porque tudo é consequência
de um certo nascer ali.
“Ilusão do migrante”, Farewell
Itabira. Itabira do Mato Dentro, Itabira do “mundominas”¹, Itabira Fotografia na Parede, “pedra luzente”², cidade natal de Carlos Drummond de Andrade que atravessa sua obra de ponta a ponta, desenhando para sempre um lugar no mapa da poesia brasileira. Em seu primeiro livro, Alguma poesia, Itabira aparece, delineada pelo Pico do Cauê, com seu ferro, o entreguismo das terras, a personalidade fechada dos cidadãos de cabeça baixa e a revolta de um personagem de nome irônico.
IV – ITABIRA
Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê.
Uma cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.
Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável.³
Itabira é aqui identificada com o sujeito (“cada um de nós”). Mais ainda, é uma paisagem com nível de distanciamento do eu, os personagens são tipificados. Há uma paisagem sonora movimentada por seus habitantes. Apenas um deles é quem “cisma na derrota incomparável”, quase prenúncio do que se tornaria a exploração da cidade e seu futuro, segundo José Miguel Wisnik em Maquinação do mundo: Drummond e a mineração.
É, no entanto, em 1940, no livro Sentimento do mundo, que Itabira passa para dentro do eu poético, para a intimidade, representada pela mobilização da confissão, como se, ali, os segredos fossem guardados. À interiorização da paisagem natal corresponde uma abertura da poesia para o mundo, signo múltiplo, que abre o livro com o poema homônimo ao título, em que o eu é oprimido pelo seu sentimento do mundo, durante a guerra, em que a busca por amor entrava em conflito com o eu, “cheio de escravos”. A abertura à sociedade se dá ao mesmo tempo que a interioridade se constrói, num jogo de ambivalências.
Notando essa tendência, Antonio Candido aponta, entre os elementos dorsais de obra de Drummond, a busca do passado através da família e da paisagem natal. Sendo este o “ciclo” que representa “na sua obra o encontro entre as suas inquietudes, a pessoal e a social, pois a família pode ser explicação do indivíduo por alguma coisa que o supera e contém”.
Itabira está no centro dos grandes acontecimentos mundiais e das memórias dos pequenos gestos e objetos da infância, sendo ao mesmo tempo, um peso a ser carregado e uma baliza definidora de seu caráter e de sua inserção no teatro do mundo, assim como de sua classe social e de sua posição como intelectual. São essas as forças, junto da interiorização, presentes em “Confidência do Itabirano”, de Sentimento do mundo (1940):
CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Em sua confidência, o poeta lamenta sua terra natal, que dói, mas também o define: “sou triste, orgulhoso: de ferro”. Tudo que define o sujeito lírico é Itabira e, mesmo assim, Itabira é apenas uma fotografia na parede, uma espécie de objeto de lembrança dolorosa, signo de decadência.
Os objetos (prendas) são significativos desse universo: o São Benedito, santo negro, metonímia do trabalho do santeiro popular e “anarquista”, Alfredo Duval⁴, sempre mencionado com admiração pelo poeta; o couro de anta, em sua significação da derrocada da natureza e tragédia do animal, a pedra de ferro, símbolo do eu e do mundo. O ferro carrega consigo o peso da herança de mineração, gado e violência, mas é também resistência: ferro é caráter inflexível e não poroso; e é caráter de personalidade e de problemática poética: não comunicativo.
Nesse momento, a consciência do passado individual e coletivo, ligado à terra natal adquire o peso que não possuía até então, em seus dois primeiros livros de poemas. E a partir daí, há poemas que passam e repassam essa tendência, que se avulta e se adensa, por exemplo em “Viagem na família” (José), em “Retrato de família” (Rosa do Povo), em “Os bens e o sangue” (Claro enigma) e chega a tomar a ribalta da poesia no final da década de 1960 e durante a década de 1970 em Boitempo, obra memorialística e livro (dividido em dois tomos) mais longo do poeta.
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Embora importantes poemas sejam posteriores, gostaria de me centrar nos poemas citados e sobretudo numa crônica “Vila de Utopia”, texto em prosa, publicado no jornal A tribuna em 1933 e recolhido em Confissões de Minas em 1944, o poeta leva o leitor a um passeio pelas faces de sua cidade natal. Aí estão presentes as diversas linhas de força que Itabira toma na obra do poeta.
Ao começarmos a lê-la, primeiro conhecemos o casarão da família, onde nasceram e morreram parentes, com sua posição central na cidade e que é vendida — primeiro sinal de decadência. E para quem lá vivia, no casarão, na cidade, “a vida era inconsciente e calma”, assim como o pico do Cauê “nossa primeira visão do mundo, também era inconsciente, calmo”.⁵ Assim, através da paisagem, a crônica passa da narração de um “nós”, centrado em si e na família, para um “nós” que vai se expandindo para todos os habitantes da “Vila de utopia”. Passa também do imutável para a potência de transformação. O pico do Cauê parece eterno e define a fisionomia da paisagem, mas também as casas desiguais são envolvidas por “uma substância eterna, indiferente à usura dos materiais e das almas”. O autor emprega aqui um vocabulário do campo religioso para descrever a cidade, porque esta é quase irreal em sua solidez e seu silêncio.
Por outro lado, há um eco do que Itabira não é, mas poderia ser naquele momento: “Detroit”, “Chicago”. Pela negativa, afirma-se que “se a vida passasse depressa”, haveria as transformações: a construção de uma estrada de ferro e a exploração desse ferro. “Temos riqueza para dar ao mundo inteiro e ainda sobra para 499 mundos possíveis”. Porém há uma indiferença dos habitantes que não permite que essa riqueza e promessa de modernização se realizem. Há aqui uma dialética do eterno e do transitório.
Com a entrada da primeira pessoa do singular (“eu”), em seguida, a crônica faz uma nova virada, agora para o passado, seguindo com a promessa de riqueza como eco que acompanha os parágrafos posteriores. “Tanta riqueza em potência vem sendo, talvez, um grande mal para Itabira”. Há discurso direto, aberto com travessão, em que ele se dirige à Itabira, como interlocutora, ao passado da cidade, à exploração do ouro, à escravidão, incluindo aí o nome de um dos primeiros exploradores “João Francisco de Andrade”, antepassado do poeta.
“Tudo isso está longe”, afirma em seguida, e parte para a memória oral, puxando o fio da história da cidade por uma voz que cantava um escárnio a um perverso senhor de escravos. Esse é um dos momentos da crônica em que se sente que o “passado dói fisicamente quando nos aproximamos dele com os olhos ainda cheios de presente”⁶, como escreveu o poeta em outro texto da mesma época, a partir de uma viagem que fez à cidade de Sabará.
Além disso, o lamento alcança a memória do poeta que parece querer estar do lado dos pretos: o velho Elias do Cascalho, a ama e empregada da família, “sá Maria”. A relação da memória com a escravidão, a posição de classe e o posicionamento em relação aos personagens citados é algo que poderia ser desenvolvido, inclusive com suas contradições e problemáticas, o que fiz em minha dissertação, mas, neste texto, prefiro focar no movimento geral da crônica e de certa constituição literária de Itabira.
Posteriormente, o texto faz uma guinada analítica. A investigação da memória da cidade é retomada e dividida em três tempos, o da “primeira Itabira”, a do ouro, da época em que as administração, leis, vinham de Vila Nova da Rainha, “para onde ia o trabalho e o suor dos mineiros, convertidos em imposto; as bênçãos e as proibições morais vinham de Santa Bárbara, onde a igreja assentara a sua freguesia”. Esse é o momento em que os faiscadores buscam ouro e a escravidão grassa. É num próximo momento, identificado com o período pós-1848, com a elevação à cidade, que a “segunda e atual Itabira”, a cidade da infância de Drummond, a que ele conhece e deu forma literária nos poemas comentários; essa cidade vai ganhando contornos construídos sobre a velha Itabira, da qual quase não há registros. Havia um mapa, mas este sumira do Arquivo Público Mineiro, segundo Drummond, que havia procurado pelos vestígios do passado.
E, enfim, se revela o terceiro momento da cidade, a partir de uma visita feita por ele na década de 1930 depois de vários anos sem habitá-la. Aí, o espelho narcísico com a cidade se quebra: “foi o cristal que se corrompeu ou foi o homem que se tornou invisível?”, ele indaga. Nessa parte, o “narrador” não trata mais de si em primeira pessoa, nem no plural, mas sim em terceira pessoa. Dessa maneira, o texto assume um distanciamento que explicita gramaticalmente o sentimento de desconexão com a cidade, habitada agora (em 1933) por um “pelotão de velhos, que nada poderiam dizer” e um “exército de rapazes e meninas, aos quais não tinha nenhuma mensagem para dirigir”. A problemática da incomunicabilidade aparece, assim, em outra chave.
Após a visita, ao sair da cidade (“na estrada de Santa Bárbara, essas dúvidas me surgiam”), a primeira pessoa retorna, com o movimento conclusivo do texto, num parágrafo de beleza admirável:
Seria absurdo isolar, na sensibilidade mineira, um sofrimento itabirano? Julgo que não. Eu sou, Itabira, vítima desse sofrimento, que já me perseguia quando, do alto da Avenida, à tarde, eu olhava as tuas casas resignadas e confinadas entre morros, casas que nunca se evadiram da escura paisagem da mineração, que nunca levantaram âncora, como na frase de Gide, para a descoberta do mundo. Parecia-me que um destino mineral, de uma geometria dura e inelutável, te prendia, Itabira, ao dorso fatigado da montanha, enquanto outras alegres cidades, banhando-se em rios claros ou no próprio mar infinito, diziam que a vida não é uma pena, mas um prazer. A vida não é um prazer, mas uma pena. Foi esta segunda lição, tão exata como a primeira, que eu aprendi contigo, Itabira, e em vão meus olhos perseguem a paisagem fluvial, a paisagem marítima: eu também sou filho da mineração, e tenho olhos vacilantes quando saio para o dia claro.⁷
Presos a esse “destino mineral”, cidade e poeta seguirão por sua vida pedregosa e vagarosa. A problemática itabirana, ainda que não seja positiva, vai se acomodando, em outros momentos da obra, a outros afetos que já estavam em potência nessa crônica. Texto esse que depois fermentará muitos poemas de Boitempo em seu processo de “esquecer para lembrar”, em que trechos se tornarão poemas e as várias facetas de Itabira serão reveladas. Isso num período em que a montanha, o pico do Cauê, a fisionomia da paisagem já estava desfigurada, em que a montanha havia alimentado as armas da Segunda Guerra Mundial, de acordo com Wisnik:⁸
Esta manhã acordo e
não a encontro.
Britada em bilhões de lascas
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões
no trem-monstro de 5 locomotivas
— o trem maior do mundo, tomem nota —
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo e na paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.”⁹
No último parágrafo, afirma-se, com certa ironia: “Todos cantam sua terra, mas eu não quis cantar a minha”. É, no entanto, Itabira que ele cantará repetidas vezes, como os ecos dos cascos dos cavalos que soam como sinos na cidade de ferro, como um baixo contínuo, um canto grave, mas, ainda sim, um canto. Nessa crônica, as várias tendências de figuração de Itabira reúnem-se nesse olhar quase polifônico. Itabira é pedra, é ferro, é herança maldita, é afeto materno, lembrança de antepassados escravagistas e da ama a quem ele tem afeto, é a história da mineração, é espelho polido e espelho quebrado, é a vida inteira. Atravessando aproximação e distanciamento, identificação e dissolução, o poeta erige sua Vila de utopia. Ao fazê-lo, ele vai inscrevendo sua confissão na (des)ordem geral do história, seu canto no mundo no canto do mundo.¹⁰
¹ O neologismo está presente no poema “Escritório”, de Boitempo: menino antigo, 2017, p.92.
² Tradução da palavra “Itabira” em tupi, presente em “Pedra natal”, poema de abertura de Boitempo: esquecer para lembrar, 2017, p.15.
³ Alguma poesia, 2013 [1930], p.25.
⁴ Ver CABAÑAS DA SILVA, Felipe. “Itabira”, 2022.
⁵ “Vila de utopia”, in: Confissões de minas, 2020, p.105.
⁶ Em “Viagem a Sabará”, de Confissões de Minas, 2020, p.113.
⁷ Em “Vila de utopia”, de Confissões de Minas, 2020, p.111.
⁸ Wisnik (2018) descreve e explica o processo histórico pelo qual passou Itabira e a mineração de ferro e mostra como a mineração que desfigura a cidade também a inscreve no conflito da Segunda Guerra Mundial.
⁹ O trecho é do poema “Montanha pulverizada”, de Boitempo: esquecer para lembrar, 2017, p.61.
¹⁰ Inspirei-me em Bachelard, quando ele afirma que nossa casa é nosso “canto no mundo”. Em francês, a palavra utilizada é “coin”, que não possui os sentidos do português. Um acaso da tradução, ou achado dessa, inspirou essa frase e a reflexão deste texto.
REFERÊNCIAS:
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
CABAÑAS DA SILVA, Felipe. “Itabira”. In: COSENTINO, Bruno; FERRAZ, Eucanaã (Orgs.). Dicionário Drummond. São Paulo: IMS, 2022, p.320-6.
CANDIDO, Antonio. “Inquietudes na poesia de Drummond”. In: ______. Vários escritos. São Paulo, Duas Cidades, 1995.
CASTELLI, Chantal; AGUIAR, Joaquim Alves de. Lembranças em conflito: poesia, memória e história em Boitempo. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das letras, 2013.
_________. Boitempo: Menino antigo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
_________. Boitempo: Esquecer para lembrar. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
_________. Claro Enigma. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
_________. Confissões de Minas. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
_________. Sentimento do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
WISNIK, José Miguel. Maquinação do mundo: Drummond e a mineração. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
* Guilherme Tardelli é mestre em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela USP, professor de Literatura e pesquisador da obra de Carlos Drummond de Andrade.
