Por Fernanda Ikedo*

Quem passa pela avenida Afonso Vergueiro, sentido centro, em Sorocaba, consegue ver uma pequena praça próximo ao semáforo, no lado oposto do shopping mais antigo da cidade.

Nessa praça há um monumento simples, bloco de mármore apenas com uma placa em homenagem ao estudante sorocabano Alexandre Vannucchi Leme, que aos 22 anos foi assassinado pela ditadura civil-militar quando cursava o quarto ano de geologia, na Universidade de São Paulo (USP). 

Na infância do Minhoca, como era conhecido devido ao apelido que ganhou na USP, aquela praça era um campinho de terra onde ele e amigos jogavam bola. Era só descer da sua casa, na rua Amazonas, em menos de 200 metros até chegar nessa confluência com a avenida. 

Além de jogar bola, Alexandre gostava muito de ler e era apaixonado pela natureza. Os estudos de Alexandre se iniciaram em Itu, depois fez o segundo grau (atual ensino médio) em Sorocaba, assim como o colegial científico, no período diurno, na Escola Estadual Dr. Julio Prestes de Albuquerque, conhecido por Estadão, e ao mesmo tempo, fez o curso normal, no período noturno, na Escola Municipal Dr. Getúlio Vargas. Na juventude, um dos lugares que gostava de visitar e estudar era a Fazenda Ipanema, que abrange Iperó e Araçoiaba da Serra. 

 

REVIRAVOLTA 

“Alexandre fazia seu curso com dedicação exemplar. Aprendia Geologia e exercitava-se na tarefa sublime de pensar dias melhores para o seu país e seu povo. Tomou-se de uma particular ojeriza pelos projetos faraônicos, impostos pelos governos ditatoriais a uma população submetida a um silêncio forçado”, diz o professor e geólogo Aziz Nacib Ab´Saber em uma carta distribuída aos estudantes e professores da USP, datada de 17 de março de 1998, impressa e distribuída a alunos em memória aos 25 anos da morte de Alexandre Vannucchi Leme.

Dia 15 de março de 1973, nove anos após o golpe de 1964, foi o último dia que Alexandre assistiu aula na Geologia. Como consta no livro Dos filhos deste solo (Boitempo, 1999), os presos políticos que se encontravam nas celas próximas ouviram os gritos e gemidos de Alexandre. Ele sangrava muito na região do abdômen. Ele foi sequestrado no dia 16 e levado para a tortura. No dia seguinte, foi torturado pela equipe A, chefiada pelo torturador de nome “Dr. José” e pelo investigador conhecido por “Dr. Tomé” e integrada por: “Caio ou Alemão”, “Dr. Jacó”, “Silva”, “Rubens”, todos comandados diretamente pelo comandante daquele departamento, major Carlos Alberto Brilhante Ulstra, apelidado de Tibiriçá. No dia 17 de março de 1973, Alexandre estava morto na cela. 

Versões foram criadas pelo órgão de segurança. Entre elas, que ele teria tentado fuga e teria sido atropelado por um caminhão. O laudo necroscópico de Alexandre, assinado pelos médicos Isaac Abramovitc e Orlando José Bastos Brandão, em 22 de março de 1973, feito pelo Instituto Médico Legal (IML/SP), afirmava a versão da polícia. Outra versão foi de suicídio. Era “normal” essas mentiras nos centros de tortura. Dois anos depois do assassinato de Alexandre, também fabricaram uma versão para a morte do jornalista Vladimir Herzog.

 

VIRAR ESSE MUNDO, CRAVAR ESSE CHÃO

Dona Egle Vannucchi Leme e seu José Oliveira Leme, pais de Alexandre, foram incansáveis na busca por memória, verdade e justiça. Dez anos de dor e luta até conseguirem descobrir a vala onde tinham enterrado Alexandre e fazer o traslado dos restos mortais, em 1983, para Sorocaba. Uma noite de vigília foi realizada no auditório da Escola Municipal Getúlio Vargas.

Antes, em 1978, uma praça pública foi inaugurada em homenagem a Alexandre, na confluência da rua Amazonas com a avenida Afonso Vergueiro. Como lugar de memória, a praça representa a luta contra o autoritarismo, o esforço de encontrar motivação para virar esse mundo, cravar esse chão, como diz a letra cantada por Chico Buarque (Sonho impossível, adaptação de Impossible Dream). Ou seja, mudar esse mundo, com firmeza, como quem finca os pés ou uma bandeira em busca de algo melhor.

Teve luta até na nomeação da praça. Sob o governo do prefeito José Theodoro Mendes (MDB), em 1978, aquele local onde Alexandre jogou bola tornou-se uma praça pública. A indicação foi do vereador João dos Santos Pereira (MDB), ex-operário e que já tinha passado por prisão e tortura.

A inauguração ocorreu no dia 7 de outubro de 1978 com a presença de familiares Vannucchi Leme, amigos, militantes do núcleo de Sorocaba do Comitê Brasileiro de Anistia (CBA) e do então deputado estadual Fernando Morais (MDB) e vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas do estado de São Paulo, que já era escritor reconhecido por sua obra A Ilha (1976), como sucesso editorial.

Na cerimônia de inauguração, Morais leu uma pequena carta escrita pelo também escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, o Gabo, que estava de passagem pelo Brasil:

...saibam que vocês não estão sozinhos nessa luta. Na Nicarágua ensangüentada por Somoza, no Chile ensangüentado por Pinochet, em toda nossa América ensangüentada por tantos repressores, estará sempre a voz de um Alexandre Vannucchi Leme clamando pela liberdade e pela democracia.

A indicação do nome da praça teve aprovação unânime na Câmara de Sorocaba. João dos Santos discursou na inauguração. Também teve fala o médico Fausto Carneiro, representante do Comitê Brasileiro de Anistia (CBA), seção Sorocaba. A inauguração, como consta no jornal Movimento (p. 11, de 16 a 22/10/1978) marcou também a Semana Sorocabana pela Anistia aos presos políticos que enfrentaram a ditadura.

Nessa época, Sorocaba estava com 300 mil habitantes e a Câmara contava com 17 vereadores. E o Brasil... ainda sendo governado por um militar, sob o governo de Ernesto Geisel. Foi nesse cenário político que essa discreta praça transformou-se em um inquérito policial. João dos Santos Pereira não foi apenas chamado a depor, como os outros 16, mas também indiciado.

O emedebista de 53 anos negava, ao depor, conhecer qualquer ato criminoso de Alexandre, alegando ainda que ele era de família tradicional sorocabana. Após diversas manifestações de repúdio, a acusação foi retirada.

 

REPARAÇÃO

O Estado brasileiro reconheceu, ainda que tardiamente, sua responsabilidade pela morte de Alexandre Vannucchi Leme e adotou algumas medidas de reparação, principalmente no campo simbólico e indenizatório.

O caso foi analisado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, em 1996, que reconheceu que Alexandre foi morto sob custódia do Estado, contrariando a versão oficial da época (que alegava suicídio). Houve correção nos registros, reconhecendo que a morte ocorreu em decorrência de tortura. Esse reconhecimento foi fundamental para caracterizar a morte como violação de direitos humanos.

Um aspecto relevante das reparações simbólicas foi a concessão de diploma póstumo a Alexandre Vannucchi Leme pela Universidade de São Paulo.

Esse ato teve forte significado político e institucional: ao reconhecer formalmente sua condição de estudante e concluir simbolicamente sua trajetória acadêmica interrompida pela repressão, a universidade não apenas prestou homenagem, mas também reafirmou o compromisso com a memória, a verdade histórica e a condenação das violações cometidas durante a Ditadura Militar no Brasil.

 

PARA QUE UM NOVO TEMPO AMANHEÇA

No documentário Porque lutamos!, que realizei em 2009, dona Egle Vannucchi Leme, mãe do Alexandre, conta em sua cadeira de balanço, na sala de sua casa, que seu filho sempre gostou muito de ler e que era daqueles jovens que todo mundo gostava de ter por perto, muito querido. Ela também recita a frase da placa de bronze original que foi colocada no monumento lapidado em mármore na praça: “Hei de fazer que a voz torne a fluir/ Entre os ossos.../ E farei que a fala/ Torne a encarnar-se.../Depois, que se perca esse tempo/E um novo tempo amanheça”.

Essa placa já foi roubada do monumento e outras, mais simples, foram sendo colocadas ao longo do tempo. Hoje, não mais em bronze, permanece apenas com o nome de Alexandre e a frase: líder universitário.

Mas, ouvimos dona Egle dizer, no documentário, que essa frase consta em um livro que Alexandre gostava muito e tinha levado pra ela. Em reportagem publicada no Folhetim, da Folha de São Paulo, em 3 de junho de 1979, diz que esses versos foram dedicados a Alexandre, em 1973, por presos políticos.

No dia 17 de março deste 2026, fez 53 anos que tiraram Alexandre do seu último ano de Geologia, do convívio dos seus pais, irmãs e irmão e amigos, impediram um futuro. Mas honramos sua vida e lembrando as palavras de Gabriel Garcia Márquez, na inauguração da praça, sempre seremos muitos, clamando por liberdade e por democracia.

Aqui da Nuestra America, à espera de um novo tempo, sustentamos o movimento pela memória coletiva de um povo que não esquece suas lutas e segue caminhando, e também cantando, em direção à igualdade, exigindo respeito e construindo autonomia. 

 

* Fernanda Ikedo é jornalista, doutoranda em Comunicação e Cultura (Uniso), atua há mais de vinte anos em temas como ditadura, memória e direitos humanos.